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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entrevista no Quintal


O Rennan Loezer, blueseiro dos bons, publicou uma entrevista comigo, no    site Quintal dos Fundos, sobre minha HQ Kerouac,. Valeu, Rennan! 





Como começou esse interesse por Geração Beat? E de onde veio a ideia de fazer uma HQ da vida do Kerouac?

Conheci a Geração Beat através de um artigo que o Cláudio Willer publicou na revista
Chiclete com Banana lá pelos idos de 1996. Eu tinha uns 15 anos. Pirei com aquilo, com a imagem daqueles caras viajando de carona de uma ponta a outra da América, procurando um sentido para as suas vidas e escrevendo sobre tudo isso de modo intensamente existencial. A crítica ao consumismo e a louvação da vida acima de tudo. O deboche à caretice e consumismo americano do pós-guerra, tudo me fascinou. Mas eu não consegui encontrar nenhum livro beat em nenhuma biblioteca e na periferia não existem livrarias, então não encontrei nada por um bom tempo. Anotei os nomes dos livros e dos escritores, que o Willer citava na matéria, e guardei na carteira. Aos 16 anos comecei a trabalhar como office boy no centro de São Paulo. Andava por todo centro de São Paulo, em todos os cartórios e bancos e logo comecei a vasculhar os sebos em busca do On the road. Depois de muito procurar, finalmente encontrei. Me custou o olho da cara, porque, naquela época, estava fora de catálogo, mas meti um foda-se e comprei. Foi provavelmente o melhor investimento que fiz na minha vida. Fiquei duro, mas o livro mudou o meu modo de ver o mundo.
Desde então leio tudo o que me cai nas mãos sobre essa turma: Kerouac, Ginsberg, Burroughs, Corso, Ferlingheti etc.

A ideia de fazer a HQ surgiu meio por acaso. Em 2008 eu dava aulas de desenho em uma escola de arte e fazia freelas de ilustração. Mas tinha vontade de criar algo meu, queria dizer alguma coisa, beliscar a bunda de alguém, sei lá. Eu escrevia bastante, tinha umas 100 páginas de uma história, mas tinha um nó na trama que eu não conseguia desatar. Então ia deixando tudo na gaveta. Por outro lado sempre curti quadrinhos, já havia feito fanzines e histórias curtas para coletâneas nacionais, como Front e Graffite 76%, então fiquei com vontade de fazer uma graphic novel. A primeira ideia que me veio foi a de quadrinizar trechos de livros de escritores que admiro. Depois juntaria tudo em um álbum, essas histórias curtas, cada uma com 10 páginas no máximo. Pensei em quadrinizar, entre outros, histórias do Ferdinand Céline, Jack London, Bukowisk, João Antônio, Lima Barreto, Fernando Pessoa, Henry Miller e claro, Jack Kerouac. O trecho escolhido do On the Road, seria a cena final, que mostra um Dean maltrapilho no meio da rua vendo o amigo Sal sumir na esquina dentro de um carrão rumo a um show de jazz. Comecei fazendo alguns desenhos descompromissados do Kerouac e tive um estalo: “Por que não fazer uma biografia do Jack Kerouac em quadrinhos?”. Aí decidi deixar a outra ideia de lado e contar a história do Rei dos Beats. Foi assim que começou. Em 2008.





Billie Holiday


Música, literatura, ilustração e cinema: qual é o pessoal que mais te influencia?

Todos eles me influenciam, sou amante de todas as artes, mas principalmente da vida, que é a maior influência para qualquer artista. Porém confesso que tenho uma inveja, nada saudável, dos músicos.


Qual é sua expectativa referente a leitura do Kerouac,? Apesar de ser outra plataforma, sua pretensão foi embasar na mesma linguagem transgressora do livro ou criar uma nova abordagem?

Não crio expectativa. Inicialmente, gostava de imaginar que se meu gibi atingisse dez pessoas já estaria ótimo.
Com certeza o método que utilizei para criar o quadrinho do Kerouac foi transgressor, mas isso não fica evidente no livro pronto, ou seja, para o leitor habituado a leitura de quadrinhos não existe grande diferença em termos de linguagem.
A primeira questão que me impus quando comecei a escrever o roteiro foi: O que aconteceu Kerouac? Além disso, outra pergunta que fiz foi: Por que Kerouac? E o que falar do Kerouac e dos beats? Bom, estas três questões já eram suficientes para começar o trabalho e tinha a certeza de que outras tantas surgiriam no meio do caminho (no meio da estrada). Aliás, uma decisão que tomei logo de cara é que iria trabalhar com um método parecido com o de Kerouac na feitura do livro do início ao fim. Kerouac escrevia rascunhos, diários, notas, frases soltas em algum caderno ou no que tivesse a mão e depois sentava e retrabalhava tudo da maneira mais intensa possível costurando, reescrevendo e inserindo novos trechos, dando sentido a tudo e deixando sua escrita fluir como água tanto quanto fosse possível. Para isso escrevia intensamente dia após dia em busca sua própria voz, lia os autores que apreciava em voz alta para captar sua prosódia, como Shakspeare, por exemplo, e principalmente buscava ser coerente com sua filosofia de vida e a sua época. Segui tentando ser fiel a essa maneira de criar. Conhecia a maneira mais usual de se escrever um roteiro, mas queria buscar um jeito mais complexo de trabalhar as ideias que tinha, além de fugir de um método, queria ser espontâneo o tanto quanto fosse possível. Pensei o seguinte, recordando o que Kerouac escreveu em seu método para a prosa moderna, comecei escrevendo tudo da maneira que me vinha a mente. Depois organizei tudo em um primeiro roteiro onde um Jack Kerouac já perto da morte, angustiado e mergulhado no vício lembrava os acontecimentos mais relevantes da sua vida, de modo não linear. Durante o processo li e reli todos os livros de Kerouac que tinha a mão e pesquisei muito na web, vi filmes da época, procurei livros de fotografia e artigos sobre os beats, li os diversos textos do Cláudio Willer sobre os beats e seguindo uma indicação do próprio Willer li outros textos que influenciaram a escrita de Jack , como Ferdinande Céline, Dostoievsk, Jack London, Rimbaud, Walt Withiman e até o Psiquiatra Wilhelm Reich, além dos outros beats: Allen Ginsberg, Wilhiam Burroughs, Gregory Corso e Ferlinghetti. Usei dois cadernos de brochura pequenos onde anotei as ideias para minha história. Também fui fazendo rascunhos de páginas e anotações de cenas que queria mostrar. A partir desses esboços procurava as referências necessárias para compor os quadros. Ative-me em especial aos cenários, vestuário e no Hudson 1949 que apareceria em grande parte da história e assim, depois de alguns meses, consegui escrever um grande rascunho cronológico da vida do Kerouac, desde a sua infância até seu sucesso com a publicação do On the road e sua morte e rascunhar grande parte das sequências, além de algumas  páginas finalizadas. Depois embaralhei tudo numa sequência de Flashes que iriam passar na mente de Jack enquanto ele vivia seus últimos dias. Minha dúvida maior era: Será que estou sendo fiel há história verdadeira dele (Jack Kerouac)? Tomei coragem e enviei uma mensagem para o Claúdio Willer, que é um dos caras mais gabaritados no assunto dos beats no Brasil, perguntando várias coisas sobre os beats, querendo saber detalhes e apresentando algumas páginas que já havia feito. Ele me respondeu o seguinte:
“...não se preocupe em 'entender' mais de Kerouac - leia a obra dele e principalmente siga sua imaginação e intuição. Essa edição brasileira de Visões de Cody vale a pena - mas, repito, não se preocupe com fidelidade ao Kerouac histórico, mas sim à sua visão de Kerouac.”
Bom, isso realmente me libertou e a partir daí entendi que era isso o que me moveria dali em diante: Imprimir a minha visão pessoal sobre Jack Kerouac, até onde isso fosse possível. Voltei ao trabalho intenso de corte principalmente. Sei que mudei várias vezes de direção e em vários momentos achei que não iria conseguir, mas três anos depois finalmente a HQ foi finalizada e lançada.


Já pensou em fazer ou já fez alguma viagem à la On The Road?

Nunca viajei de carona, mas já fiz algumas viagens, principalmente na cabeça.



O que tá vindo de novo por ai?

Dia 21 de Setembro vou lançar um novo álbum de quadrinhos, que fiz em parceria com meu amigo Jeosafá Fernandes. Trata-se da adaptação de um conto do Machado de Assis, “O espelho” para HQ. O livro inaugura a coleção chamada “Clássicos realistas em HQ” lançada pela editora Mercuryo Jovem. (Você está convidado desde já!)
Em dezembro vou estar em Buenos Aires lançando “Mujer em Blanco” pelo selo independente Dead Pop. O roteiro é do Damian Conelly (um gênio que escreve milhões de roteiros ao mesmo tempo para vários desenhistas, espalhados em diferentes países).
No ano que vem pretendo terminar um romance que já venho escrevendo a uns 8 anos e continuar fazendo quadrinhos, é claro.
Também quero voltar a me dedicar a pintura e quem sabe projetar uma exposição dos meus quadros.


http://jottapinheiro.blogspot.com.br/p/o-espelho-em-hq.html


O que você acha que Jack Kerouac diria do Kerouac?

Kerouac foi um católico louco e vagabundo que viveu toda a sua vida procurando visões neste mundo grande demais. Kerouac foi um homem de carne, osso e ternura.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Kerouac, na revista Continuum

Kerouac na sessão Balaio da revista Continuum do Instituto Itaú Cultural. Valeu Marco Aurélio Fiochi, Paula Fazzio e André Setti.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Resenha

Resenha do Kerouac, escrita por  Renato Lebeau. Publicada no site Impulso HQ.

A narrativa rápida, cortes de cenas que você não espera, contrastes duros com a marcação do preto chapado, e a sensação de sem destino são os elementos que caracterizam o álbum Kerouac, de João Pinheiro. Pudera, essa é uma HQ sobre o nome mais significativo da geração Beat.
Publicada pela Devir Livraria, a obra é um relato da vida de Jack Kerouac, escritor norte-americano que ficou conhecido com o livro “On the road”. Seus escritos influenciaram toda uma geração, e a sua imagem e o seu modo que viveu ainda é modelo para quem segue a filosofia “estou louco para viver”.
Como toda obra que se foca em um personagem histórico bem específico e peculiar, Kerouac pode não agradar aos não entendidos do Beat, isso porque o autor levou para as suas páginas o que poder ser considerada uma tradução gráfica desse movimento, com momentos de altas e baixas emoções.
Para quem admira a vida de Kerouac ver as cenas melancólicas, suas caminhadas solitárias em meio a tempestades sendo cortas por cenas eletrizantes com carros em alta velocidade, pode ser gratificante reconhecer que seu ídolo foi representado da maneira que era. Para os que não são familiarizados, isso inicialmente pode confundir a leitura.
Quem desconhece totalmente os beats, uma boa dica é conferir com atenção o prefácio de Cláudio Willer. Ele dá as orientações e referências necessárias para um bom entendimento da narrativa, inclusive os motivos de uma sequência de ação não linear.
Entendendo o contexto e absorvendo as referências necessárias, o leitor vai perceber como João Pinheiro construiu uma “HQ Beat”. Seu traço não são linhas bem definidas, as hachuras são utilizadas para dar volume e ao mesmo tempo “sujar” a arte, muitos quadros com a ausência de cenário, com a utilização do preto chapado, nos fazem perder a noção de espaço e tempo, e até a inconsistência de se definir o personagem graficamente, são passíveis de se visualizar com essa interpretação.
Se Kerouac escreveu a sua principal obra em três semanas, de uma vez só, parece que João Pinheiro estava nesse mesmo clima, o que justifica algumas páginas que nos dão a impressão de menos trabalhadas ou elaboradas. Em contrapartida, outros momentos, o autor consegue transmitir toda a emoção necessária, fazendo o leitor perder o fôlego, como o caso da página 44, que é uma referência a uma foto de Jack Kerouac. Expressão na dose certa.
O álbum da Devir é uma obra para iniciados em Kerouac e na geração Beat, mas isso não significa que ele não seja bom, pelo contrário, pela sua proposta ele atinge perfeitamente as expectativas, o que significa que muitos leitores vão ficar satisfeitos com a leitura.
Para finalizar, não deixem de conferir o blog Visões de Jack Kerouac, onde João Pinheiro explica mais sobre a construção do álbum com making off, trailer e prévias das páginas.

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

Jack Kerouac.

Livro

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Para adquiri-lo, mande uma mensagem para joaocpp@yahoo.com.br com o título KEROUAC, que eu envio pelo correio mediante o depósito de 25 reais.

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